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O Fim das Horas O fim das horas O tempo não existe. O primeiro a oferecer uma versão popular sobre essa polêmica
tese será o físico britânico Julian Barbour, 61. Seu livro, "O fim do tempo",
será publicado em setembro, nos Estados Unidos e no Reino Unido, sob a recomendação da
Universidade de Oxford. Barbour - Nós sabemos que o cérebro nos engana quase sempre. Quando assistimos a um filme no cinema, imagens paradas estão correndo tela abaixo e nós não conseguimos ver. Nossos olhos não acompanham a mudança e concluem haver movimento. É uma completa ilusão. Acredito que aconteça o mesmo quando nosso cérebro faz com que acreditemos em movimento. Entre montes de imagens registradas no nosso cérebro, ele as organiza de forma a passar a idéia de movimento. Folha - Qual seria o impacto na vida das pessoas se ficasse comprovada a inexistência do tempo? Barbour - Isso é muito difícil de prever. Copérnico, ao descobrir que a Terra não
era o centro do Universo, não tinha idéia do que veio depois dele, sobre o que Galileu e
Albert Einstein realizaram com base na sua revolução. Minha tese é uma conjectura, e
não estou sozinho nisso. Há um bom número de respeitados cientistas conduzindo
pesquisas em linhas similiares à minha. Se essa conjectura for provada, certamente nos
deixará mais conscientes sobre o quanto o mundo é especial, sobre a criatividade da
natureza. Folha - Dificilmente as pessoas deixariam de usar relógio, por exemplo, ou desacreditariam totalmente nas medidas do tempo. Sendo assim, a comprovação da inexistência do tempo seria uma outra abstração, válida apenas para o meio científico? Barbour - Não. O relógio ainda teria sua utilidade, não para indicar as horas, mas para indicar a possibilidade que se conhece. Os instantes do tempo são um pouco como lugares diferentes na Terra. O relógio seria como um instrumento de navegação, que diria onde você está no planeta. A cada momento, nos encontramos em uma nova possibilidade, e o relógio seria a prova da existência desse instante. Folha - O que é o passado? Barbour - É tão real quanto um agora. O nosso corpo, por exemplo, passa por bilhões de pequenas modificações em apenas um segundo. Bilhões e bilhões de hemoglobinas são criadas e destruídas. No fundo, somos pessoas diferentes a cada instante e a nossa consciência é parte disso. Cada agora vem com uma gama de possibilidades de experiências e não se pode dizer que uma experiência vem antes da outra. Esse é o problema da seta do tempo, parece que há uma cronologia, uma impressão tão consistente que acreditamos na linha do tempo. Uma história pode ser arranjada para parecer cronológica. Algumas mudanças nessa estrutura não deixariam a mesma impressão de continuidade. O cerne da minha teoria questiona isso, por que apreendemos apenas as informações que parecem dar a noção de cronologia? É um mecanismo poderoso que resulta na nossa experiência. Minha explicação é que apenas os agoras que fazem algum sentido lógico são escolhidos pela mente. Folha - Se temos um "agora" na mente, os outros são expressos pelas possibilidades que eu penso terem sido descartadas, mas que ainda existem em algum lugar? Barbour - Isso é um grande mistério. A física newtoniana é a forma como entendemos
o tempo. Como se houvesse um curso na história. Já a mecânica quântica não nos
fornece essa imagem, pelo contrário, diz que há várias probabilidades ao mesmo tempo. O
problema é que, hoje, a mecânica quântica só é aplicada a uma parte do Universo e o
desafio é aplicá-la a todo o Universo, porque, segundo esse princípio, um objeto pode
estar em vários lugares ao mesmo tempo. Na física quântica, até você provar que o
objeto está em apenas um lugar, ele está por toda parte. E é um princípio que se torna
ainda mais complicado, bonito e surpreendente quando diz que vários objetos podem estar
em um único lugar ao mesmo tempo. Aplicada a todo o Universo, essa teoria possibilita a
existência de vários "agoras" num único instante. O que a mecânica quântica
diz é que há várias versões de você por toda parte. Folha - Mas neste mundo em que vivemos há provas fortes da direção do tempo, o envelhecimento, as memórias, o movimento, a própria contagem do tempo. Barbour - O fenômeno está correto, mas a explicação errada. Pela minha noção de tempo, a explicação deveria ser outra. Além do mais, é preciso lembrar que o sol e as estrelas mostram uma passagem diferente do tempo. Venho questionando por que uma medida seria melhor que a outra. Folha - O sr. é religioso? Barbour - Fui quando era mais jovem. Hoje acredito que a vida é um dom e um mistério pelo qual sou infinitamente grato. Acredito que a física ainda realizará notáveis descobertas. O fato de as leis científicas não preverem nenhum papel para as cores e os sabores prova que muito está por vir.
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